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O cantar das Janeiras
é o domínio, quiçá o mais rico, do Cancioneiro
Popular Português. A sua origem remonta igualmente ao tempo do paganismo
em imitação das Saturnais Romanas que, ao converterem-se à religião
crista, assumiram foros da maior originalidade.
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No ancestral cantar das
Janeiras está contido todo o espírito popular, a criatividade; a beleza,
o encómio e o escárnio. Muito embora neste domínio se acentuem as
heterogenias regionais, é, no entanto, comum a todo o País a composição
de pequenos grupos corais, normalmente acompanhados de instrumentos
musicais, que percorrem os mais variados lugares da sua freguesia ou
vila, batendo às portas e entoando loas religiosas à mistura com quadras
de fino gosto popular.
O objectivo era serem bem
recebidos pelos moradores que lhes ofereciam doces e
vinho. Mas, caso
não correspondessem a contento, eram “mimoseados” com canções de
chacota, por vezes achincalhantes, e não raras vezes culminadas por
cenas bem tristes e desnecessárias.
As esmolas recebidas, em géneros,
guloseimas ou dinheiro, eram em certas regiões destinadas à ceia ou
festa do grupo, enquanto que noutras paragens revertiam a favor das
almas do Purgatório.
No
Algarve são bem
conhecidas as tradicionais charolas que na orla marítima do Sotavento
ainda se mantêm com o mesmo fulgor de há dezenas de anos atrás.
A recolha deste riquíssimo
espólio da nossa literatura oral, foi, em parte, compilado por
José
Leite de Vasconcelos, Ataíde Oliveira e muitos antropólogos, amadores ou
profissionais, que percorreram o País de lés-a-lés.
José Carlos Vilhena Mesquita |