|
|
A “Encomendação
das Almas”,
uma celebração associada ao culto dos mortos, e que em tempos se fazia
na maioria das aldeias transmontanas, continua a ter expressão, todas as
Sextas-feiras da
Quaresma,
a partir da meia-noite, em Algoso, uma aldeia histórica do concelho de
Vimioso.
Um pequeno grupo de pessoas da aldeia teima em fazer sobreviver um
ritual cuja origem, como a maioria das tradições, se perde no tempo e
corre, como tantas, o risco de se perder.
|
|
Esta encomendação, que decorre obrigatoriamente a partir da meia-noite,
junta lado a lado um pequeno grupo de homens e mulheres, que percorrem,
noite dentro, todos os bairros da aldeia para lembrarem àqueles que “já
dormem o primeiro sono” que é preciso rezar pelos mortos, que solicitam
o auxílio dos vivos para a sua entrada no Paraíso.
Colocados em lugares estratégicos e agrupados num pequeno
círculo, entoam um punhado de versos que, a distintas vozes e em ritmo
afinado, a que se misturam um tom dolente e sinistro, dão vida às
sonoridades de uma melodia que aprenderam dos avós.
“Acorda ó pecador / acorda não durmas mais / olha que se estão
queixando / as almas dos vossos pais.” Dizem alguns dos versos das três
estrofes de uma canção, que é também um alerta, ensaiada vezes sem conta
algumas horas antes da saída, para ajudar a distrair do sono.
Feito com algum secretismo, o cerimonial acontece tardio. “Só
vamos quando já todos estão a dormir, para depois os acordarmos e fazer
com que aqueles que nos ouvem rezem pelas almas do Purgatório”, explica
Ascensão Vicente.
Antigamente, diz Maria da Natividade, “só eram três pessoas,
dois homens e uma mulher, e, como fazia muito frio, os homens iam muito
tapadinhos, com aqueles capotes de burel”, e percorriam, mesmo às
escuras, as ruas enlameadas da aldeia para poder levar a todos os
recantos os versos da tradição. “Quando era nova, lembro-me bem de os
ouvir da cama e a gente arrepiava-se com aquilo”, recorda Maria da
Natividade.
Fonte
|