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O Jogo do Pião em Pensalves
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Na década de 50, na freguesia de Pensalves, o jogo do pião estava
institucionalizado no período quaresmal e exclusivamente no período
quaresmal.
Todos os anos, após a quarta-feira cinzas, os piões faziam a sua
aparição até a Dª. Leonor(2), tradicionalmente avessa a qualquer tipo de
jogo, só por motivo, descarado e repetido, de atraso à escola é que
confiscava o seu piãozito.
Era um jogo de rapazes, alguns já homens feitos, e pelas singulares
características que lhe observamos nesta região, merece que lhe
dediquemos uma atenção especial.
Por todo o país se joga o pião, com datas ou sem datas apropriadas, mas
a rigidez cíclica do fenómeno, registada em Pensalves, é um dado
interessante.
Logo que as cortinas negras e roxas ocultavam por completo o barroco
exuberante dos altares e santos da igreja seiscentista, anunciando a
Paixão de Cristo, logo apareciam e se multiplicavam os piões. Embora
tenhamos notícia de que noutras terras seja interdito este jogo durante
a Semana Santa, concretamente, na Sabrosa e no Arquipélago dos Açores(3),
não existia essa interdição em Pensalves, excepto na sexta-feira da dita
Semana em que não se devia fazer nada pois «nem os pássaros mexem os
ninhos».
Descrição do Jogo
Material: um pião e uma baraça para cada jogador.
Participantes: Todos os rapazes ou homens interessados.
Organização: dois círculos concêntricos traçados no solo. O
círculo interior, «a molha», tem um palmo de diâmetro e o exterior dois
passos bem medidos. Os jogadores dispõem-se à volta do círculo exterior.
Objectivo: tentar «nicar» o pião que «dança» dentro do círculo
lançado, à vez, por cada um dos participantes.
Desenvolvimento: um lançamento prévio determina o pião que vai
dançar em primeiro lugar. Aquele que não «dançar» na «molha» ou
simplesmente não conseguir «dançar» é o primeiro da rodada. Efectuado o
lançamento todos tentam acertar-lhe enquanto «dança» e se possível
rachá-lo de alto a baixo, escaqueirá-lo completamente, momento em que se
atinge o clímax do jogo.
O pião que se «escarapuçar»(4)
ou sair «dançando» para fora do círculo
maior «aguente uma rodada» espetado no centro da «molha». |