Ergueram estes um castelo sumptuoso onde, no meio da maior
munificência, reinava Abakir - por seu valor na luta conhecido por
Feroz.
Coxins de oiro e escabelos forrados a damasco enchiam os aposentos
onde tapetes persas e sedas das mais variadas cores se multiplicavam.
Rico e poderoso era Abakir e exigente se mostrava no partilhar de
todos os prazeres mundanos. Com os grandes potentados da sua estirpe,
dos melhores centros de elegância mandara vir mulheres e com elas
repartia os ócios que as batalhas e a montaria lhe deixavam livres.
A todas tratava com deferência e delas recebia afagos e carinhos.
Mas não deixou de reconhecer que uma - de nome Zuleima - embora ter, não
revelava em sua presença aquele frémito de alvoroço e alegria comum às
restantes. Tal facto o desgostava e feria no seu orgulho.
Por isso, embora veladamente, passou a deter nela o olhar e a travar
diálogos, no sentido de averiguar o que lhe vai na alma. Reconheceu ser
causa de tudo aquilo a sede de amor que a inundava. E descobriu nela a
mais inteligente e digna de todas quantas ali juntara.
Por ela se apaixonou e às restantes acabou por despedir. Todo ele se
deu a um enleio absorvente, acabando por esquecer prazeres da caça,
convívio com guerreiros e cuidados de defesa. Fugiram-lhe amigos e
conselheiro, despeitados, e os homens de armas partiram em busca de
alcaides a quem desse gosto servir.
Abakir e Zuleima sorriam felizes, sem se darem conta de caminhavam para
o abismo. Até que um dia os Cristãos, na mira de conquista e talvez
alertados pelas deserções, vieram pôr cerco ao castelo.
Só então Abakir teve a noção da magnitude do erro cometido.
Sem outro recurso ao seu alcance, tomou Zuleima pela mão, com ela
desceu à mais rica das salas e, depois de pronunciadas umas palavras de
estranho teor, fez com que o castelo desaparecesse, sumindo-se no
interior da terra.
E ali ficaram Abakir e Zuleima, no meio de tantas riquezas, a gozar
as doçuras do amor ardente que os unia e por tantos séculos tem
continuado a vigorar - porque ninguém pôde ainda desencantá-lo nem
apossar-se de tesouros de tanta valia.»
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