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«Ora um dia sucedeu passar pela ermida de Santa Comba um moço peregrino
que se destinava a Santiago de Compostela, onde ia implorar o santo
galego, de grande nomeada em terras de entre Douro e Minho.
A
sua confessada, a prometida noiva, linda como os amores, adoecera
repentinamente de misteriosa doença, e toda se definhava, coitadinha da
pobre, sem vida nos olhos, que dantes eram como dois carbúnculos, sem
alegria nos lábios, que dantes causavam a inveja dos rouxinóis.
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E
o namorado mancebo, pobrezinho de Cristo, pôs-se a caminho, cheio de fé
num milagre, confiante no grande prestígio de Santiago.
Levava a escarcela vazia, e, por único recurso, para a longa caminhada
através dos montes do Minho, a sua rabeca, primitivo instrumento de que
fazia brotar sentidas melodias nos lugarejos que transitava...
E
nunca lhe faltou pão nem pousada, e através montes e vales, foi seguindo
sua romagem piedosa...
Já tinha caminhado sete dias e sete noites, quando se lhe deparou, junto
do Lima, ensombreada por castanheiras seculares, a ermidinha de Santa
Comba.
Nunca seus olhos haviam contemplado tamanha maravilha, madona de tanta
riqueza e brilho!
Ficou como absorto, ficou fascinado. Involuntariamente, caiu de joelhos,
em prece piedosa, com todo o fervor da sua alma de crente.
E
a imagem da santa não foi insensível à sua oração... Comoveu-a a candura
do moço namorado. Descerrando os lábios, num murmúrio doce, muito doce,
interrogou:
-
Que dor vos alanceia? Que sofrimento é o vosso, moço peregrino?
Entre soluços, o pobrezinho contou à santa as suas desditas, e o que o
levava, cheio de esperanças, a Compostela.
-
Podeis retroceder.. Vossa noiva é curada... A vossa ardente fé é digna
desse prémio... Podeis voltar atrás!
Rindo e chorando, não cabendo em si de contentamento, e não sabendo como
agradecer tão grande milagre, o peregrino pegou da rabeca, e fez ouvir
uma canção plangente, repassada de sentimento, triste, muito triste...
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