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Literatura Popular: Em torno de um conceito (2)  
 

Manuel Viegas Guerreiro (1986)


(Continuação...)

Mas tornemos à literatura popular que, apesar de sua relativa impropriedade, é a de mais extenso significado e a que prefiro. A locução tem dois sentidos: o de produção literária de eruditos destinada ao povo ou que, sem essa intenção o povo adopta - Gramsci até a designa de literatura popular artística - e o de obras literárias de invenção popular. E escusado dizer que não estamos a pensar em elaboração colectiva. A obra literária é individual, depois, de boca em boca, de tal modo se conforma com o sentir do seu intérprete, que ele a tem como sua.

«Mantém-se o tema fundamental, mas os acidentes mudam e, de tal sorte, que quase se pode afirmar que a cada exibição a peça se recria: uma sucessão de variantes em que muitos colaboram, cada um por sua vez, sem lhe pôr assinatura»3. No longo trânsito por que passa se vai tornando anónima até perder de todo o seu autor de origem.

Literatura popular é, pois, a que corre entre o povo, a que ele cria, e a alheia de que gosta e adopta.

Povo, mas que povo? a parte da população economicamente menos favorecida de todos os tempos, o Laõs dos gregos, a plebe, vulgus, turba dos romanos, a «arraia miúda», o «comum povo» de Fernão Lopes, o populo minuto da Idade Média italiana, a gente serva ou livre, mas sem terra, sem direitos políticos, os assalariados dos campos e das cidades, sujeitos à exploração dos senhores feudais, aqueles de quem Álvaro de Brito, no século XV ou XVI dizia:

Non devemos ser comuns
senam para Deos amarmos
e servirmos,
non sejamos todos uns
em ricamente calçarmos
e vestirmos.
4

O povo popular em designação corrente no século XVII, os pobres por oposição aos ricos, a gente da rua, de meia tigela, por oposição à gente da alta, à gente fina e de boas famílias na gíria de hoje, o Zé-povinho ou pagante, os outros em relação a nós, em suma. E sobre serem pobres, ainda massa analfabeta e apoucada de espírito.

É conhecido o juízo de La Bruyère (século XVII): «Le peuple n'a guère d'esprit et les grands n'ont point d’âme»; e o da Marquesa de Lambert (1647-1738): «J'appelle peuple tout ce qui pense bassement et communément».

Classe assim julgada que literatura havia de criar senão uma baixa, tosca, grosseira e risível literatura? É com tal desamor que se lhe têm referido críticos e comentadores da Idade Média até hoje. E nem os românticos que a trouxeram a um primeiro plano de suas preocupações literárias a souberam justamente apreciar.

O trovador português Martim Soares, da primeira metade do século XIII, censura um seu colega «porque os cantares deste agradavam ao público popular e não ao dos trovadores e das damas».5
 

Notas:
3 Para a História da Literatura Popular Portuguesa, do Autor, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1983, 2ª edição, p. 10.
4 Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, edição de Mendes dos Remédios, tomo 1, pp. 232-233, citado por Vitorino Magalhães Godinho...
5 Para a História da Literatura Popular..., p. 26.


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