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(Continuação...)
Mas tornemos à literatura popular
que, apesar de sua relativa impropriedade, é a de mais extenso
significado e a que prefiro. A locução tem dois sentidos: o de produção
literária de eruditos destinada ao povo ou que, sem essa intenção o povo
adopta - Gramsci até a designa de literatura popular artística -
e o de obras literárias de invenção popular. E escusado dizer que não
estamos a pensar em elaboração colectiva. A obra literária é individual,
depois, de boca em boca, de tal modo se conforma com o sentir do seu
intérprete, que ele a tem como sua. |
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«Mantém-se o tema fundamental, mas os
acidentes mudam e, de tal sorte, que quase se pode afirmar que a cada
exibição a peça se recria: uma sucessão de variantes em que muitos
colaboram, cada um por sua vez, sem lhe pôr assinatura»3.
No longo trânsito por que passa se vai tornando anónima até perder de
todo o seu autor de origem.
Literatura popular é, pois, a que corre
entre o povo, a que ele cria, e a alheia de que gosta e adopta.
Povo, mas que povo? a parte da população
economicamente menos favorecida de todos os tempos, o Laõs dos
gregos, a plebe, vulgus, turba dos romanos, a
«arraia miúda», o «comum povo» de Fernão Lopes, o populo minuto
da Idade Média italiana, a gente serva ou livre, mas sem terra, sem
direitos políticos, os assalariados dos campos e das cidades, sujeitos à
exploração dos senhores feudais, aqueles de quem Álvaro de Brito, no
século XV ou XVI dizia:
Non devemos ser comuns
senam para Deos amarmos
e servirmos,
non sejamos todos uns
em ricamente calçarmos
e vestirmos.4
O povo popular em designação corrente
no século XVII, os pobres por oposição aos ricos, a gente da rua, de
meia tigela, por oposição à gente da alta, à gente fina e de boas
famílias na gíria de hoje, o Zé-povinho ou pagante, os outros em relação
a nós, em suma. E sobre serem pobres, ainda massa analfabeta e apoucada
de espírito.
É conhecido o juízo de La Bruyère (século
XVII): «Le peuple n'a guère d'esprit et les grands n'ont point d’âme»; e
o da Marquesa de Lambert (1647-1738): «J'appelle peuple tout ce qui
pense bassement et communément».
Classe assim julgada que literatura havia de
criar senão uma baixa, tosca, grosseira e risível literatura? É com tal
desamor que se lhe têm referido críticos e comentadores da Idade Média
até hoje. E nem os românticos que a trouxeram a um primeiro plano de
suas preocupações literárias a souberam justamente apreciar.
O trovador português Martim Soares, da
primeira metade do século XIII, censura um seu colega «porque os
cantares deste agradavam ao público popular e não ao dos trovadores e
das damas».5
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Notas:
3 Para a História da Literatura Popular Portuguesa, do
Autor, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1983, 2ª
edição, p. 10.
4 Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, edição de
Mendes dos Remédios, tomo 1, pp. 232-233, citado por Vitorino Magalhães
Godinho...
5 Para a História da Literatura Popular..., p. 26. |