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Desde há um século a esta parte, Santo António tornou-se um especial
advogado de bons casamentos. Como santo casamenteiro, «não admira, pois,
que a principal clientela de devotos de Santo António se recrute entre o
elemento feminino: raparigas solteiras à espera de noivo, mulheres
solteironas desesperadas para o encontrar, ou viúvas não querendo ficar
esquecidas, e até as casadas [...], na esperança de fazerem voltar um
marido infiel, ou afastar uma concorrente indesejável»[18]. A deduzir de
afirmações de vários estudiosos, esta faceta antoniana é exclusiva do
mundo lusitano[19]. Antigamente, quando uma moça queria encontrar um
noivo, colocava o seu pedido num papel debaixo da imagem, que tinha no
altar lá em casa. Se o Santo demorasse muito, ou se o noivo não lhe
agradasse, virava o Santo para a parede, até que o noivo fosse o
desejado[20].
Uma
das características singulares da figura de Santo António em Portugal,
que se estendeu a alguns países de língua e influência portuguesa, é a
sua carreira militar. Durante as guerras da restauração da
independência, Santo António foi várias vezes invocado para se obter a
vitória face aos exércitos espanhóis. Em 1688, assentou praça no 2º
Regimento de Infantaria, em Lagos, por alvará de D. Pedro II. Em 1683,
foi promovido a Capitão, em atenção aos seus bons serviços militares,
sendo-lhe atribuído um salário de dez mil reis. Em 1814, no contexto das
invasões francesas, D. João VI promoveu-o a Tenente-Coronel de
Infantaria. Nesta época, a carreira militar de Santo António estendeu-se
de Portugal ao Brasil, a Angola, a Moçambique, à Índia, a Macau e a
Timor Leste. Ainda hoje, nestes países, Santo António é conhecido como
militar de carreira[21].
Existem, em Portugal, várias Associações Antonianas e irmandades, com
fins sócio-caritativos, promovendo a assistência aos pobres e orfanatos.
As irmandades de inspiração antoniana são hoje formas vivas e
articuladas de devoção. No que diz respeito à sua origem, cada uma delas
tem a sua história particular de piedade. Mas, no que diz respeito à
finalidade, todas elas convergem em quatro pontos: são sociedades que
promovem a mútua ajuda entre os seus membros; o socorro dos pobres; a
promoção espiritual e moral dos associados, através de práticas
religiosas e do testemunho pelo exemplo e boas obras e a difusão do
culto a Santo António.
Em
síntese, a situação da devoção antoniana em Portugal continua viva e
profundamente enraizada no coração dos devotos, embora tenhamos de
admitir que Santo António é mais propriedade do povo e não tanto dos
Franciscanos ou da Igreja. Mesmo aqueles que se dizem cristãos não
praticantes, conservam em suas casas ou nos seus estabelecimentos
comerciais uma imagem do Santo, reclamando dele a protecção sobre as
famílias, as casas e os negócios. Onde se criou a tradição de celebrar
Santo António, o dia 13 de Junho, nunca é esquecido pelo povo. Mesmo que
o Pároco não celebre com grande solenidade esse dia, os devotos ou
simpatizantes fazem-lhe a festa com grande alegria. De casos destes,
poderia citar alguns exemplos.
A
peregrinação é uma constante durante todo o ano, e assume grandes
proporções nos locais ligados à vida do Santo: a Casa-Igreja de Santo
António, em Lisboa; o Convento de Santo António dos Olivais, onde se fez
Franciscano; e o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde foi Cónego
Regrante de Santo Agostinho.
Frei Acácio José Afonso Sanches
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