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De
cónego Agostiniano a frade Franciscano
A
vida de Santo António é muito conhecida, uma vez que vários estudos de
relevo lhe têm sido dedicados[1], pelo que nos limitaremos a alguns
traços ligeiros, que nos parecem mais significativos para compreendermos
a afeição popular por este Santo.
António é um intelectual do seu tempo e o Primeiro Doutor da Ordem
Franciscana. Mas esta qualidade é pouco conhecida pelo povo, apesar de
ter sido declarado Doutor da Igreja, em 1946, mediante a bula Exulta,
Lusitania Félix, de Pio XII.
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Filho de ricos comerciantes portugueses, recebeu no Baptismo o nome de
Fernando Martins de Bulhões. Nasceu em Lisboa, entre 1191 e 1195[2],
cerca de 50 anos depois do nascimento da nação portuguesa e no decurso
da reconquista cristã do território ao domínio muçulmano. A sua história
deve ser vista nesse ambiente de expulsão dos muçulmanos e, ao mesmo
tempo, de emergência de uma nova nação. Vive os primeiros anos da sua
vida a dois passos da Catedral de Lisboa, onde frequentou os primeiros
estudos, nas aulas de Gramática. Próximo dali, a cerca de um quilómetro,
fica o Mosteiro de São Vicente de Fora, dos Cónegos Regrantes de Santo
Agostinho. Com cerca de 15 anos de idade, Fernando pediu aos pais que o
deixem entrar no Mosteiro e aí fez o noviciado. Depois, cerca dos 19 ou
20 anos, foi terminar a sua formação intelectual em Santa Cruz de
Coimbra, onde foi Ordenado Sacerdote. Em Coimbra teve a oportunidade de
conhecer os Frades Menores de São Francisco, que viviam no eremitério de
Santo Antão, nos Olivais, sobre uma colina, a Nordeste da cidade. Por
essa altura, passaram por Portugal a cominho de Marrocos, cinco Frades
Franciscanos, para aí pregarem a fé cristã. Mal recebidos em Marrocos,
acabaram por ser barbaramente martirizados.
Este facto foi crucial no despertar da vocação franciscana em Fernando
de Bulhões. A passagem solene, pelas ruas da cidade de Coimbra, dos
corpos dos cinco Frades martirizados em Marrocos, fez nascer nele o
mesmo ideal[3]. Podemos dizer que, nesse dia, o desejo de encontrar a
morte pelo martírio desprendeu-o de tudo: das suas raízes, da sua
vocação monástica e da quietude do Mosteiro, dos estudos, da ciência.
Tinha cerca de 30 anos. Pediu para entrar na Ordem dos Frades Menores e
aí recebeu o nome de António, sendo-lhe concedida imediata permissão
para partir para o norte de África[4].
Aí
desembarcou, no Inverno de 1220. Mas, uma persistente doença obrigou-o a
voltar para Portugal. No regresso, o navio que do Norte de África vinha
para Lisboa, foi desviado por uma violenta tempestade e foi parar às
costas da Sicília, na Itália. Estávamos no começo da Primavera de 1221.
O religioso português foi recolhido pelos seus irmãos Franciscanos
italianos, que o levaram para a cidade de Messina, devolvendo-lhe, com
os seus cuidados, a saúde corporal.
No
final de Maio, desse mesmo ano, realizava-se em Assis o Capítulo Geral
da Ordem dos Frades Menores, para o qual todos os religiosos eram
convidados. Foi aí que António conheceu Francisco de Assis. Terminado o
Capítulo, seguiu para o pequeno eremitério de Montepaolo, perto de Forli,
no Norte de Itália, onde estavam seis Frades. É-lhe dado o encargo de
presidir à celebração da Santa Missa para os seus irmãos e ajudar nos
trabalhos domésticos. Desejando preservar a humildade, António nunca
revelou seus conhecimentos e raramente era visto com livros, além do
breviário e do missal.
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