Iconografia antoniana
Na
igreja a que nós, os Franciscanos Capuchinhos, damos assistência em
Coimbra (igreja de Santa Justa) está uma imagem de Santo António e,
diante da mesma, do outro lado está a imagem de outro santo que se veste
da mesma maneira, mas que não é São Francisco. Há dias, duas jovens
senhoras floristas, que vinham fazer um estudo dos altares para poderem
prepararem os arranjos de flores para um casamento, que se ia celebrar
na nossa igreja, estavam muito intrigadas a olhar para o outro Santo. E
perguntaram-me: «Que Santo é aquele?». E eu respondi-lhes com outra
pergunta: «E este aqui, quem é?» Elas responderam-me: «É Santo António».
«Porque?», perguntei eu. «Porque tem o menino ao colo e o pão dos pobres
na mão». «Pois aquele além ¾ disse-lhes eu ¾ que tem as mãos abertas e
nas mãos os sinais das chagas, é São Francisco. Como tem o mesmo hábito,
para se distinguir de Santo António, puseram-lhe um ar mais triste,
barba e remendos nos joelhos». E as senhoras lá seguiram todas
contentes, não por ficarem a conhecer São Francisco, mas porque lhes
tirei a ideia de que na nossa igreja havia dois Santos António, um dos
quais, sem livro, sem menino e sem alegria.
Pela descrição que vos fiz do nosso Santo António, que vos parece, de
que século é? ¾ É uma imagem muito querida, datada de 1947, de Manuel
Tedim, um autor que para mim é um dos melhores escultores de Santo, do
século XX, em Portugal.
Para distinguir os santos uns dos outros, a hagiografia servia-se de
determinados símbolos, que se relacionam com as qualidades ou o que é
mais característico em cada Santo, segundo a história ou a lenda que
envolve a sua vida. Desde as primeiras imagens realizadas, Santo António
sempre foi representado vestido de franciscano, quase sempre de pé. Mas,
para não se confundir com São Francisco de Assis, igualmente vestido de
hábito castanho e cuja devoção estava largamente difundida, a sua face
surgia quase sempre como a de um jovem, alegre ou pensativo, sem barba.
Na mão esquerda costuma ter um livro, como alusão à sua vasta sabedoria,
enquanto a mão direita faz um gesto explicativo, como alusão ao
pregador. Noutras imagens, na mão direita é colocado um lírio, sugerindo
a pureza e castidade; ou uma cruz, símbolo da fidelidade a Cristo.
Também aparece com uma chama de fogo na mão direita, símbolo da
caridade; ou um coração, com ou sem chama, para nos lembrar que, apesar
de franciscano, ele é um discípulo de Santo Agostinho de Hipona. O
Menino Jesus, expressão do seu amor por Deus Menino ¾ que uma tradição
antiga diz lhe ter aparecido em Camposampiero pouco antes da sua morte ¾
começa a surgir na iconografia antoniana no século XV[12]. A figura do
menino foi tão bem aceite que, a partir de então, Santo António nunca
mais a dispensou, obrigando os artistas a verdadeiros exercícios de
equilibrismo, fazendo sentar o menino sobre o livro que Santo António
também não gosta de esquecer. Em Portugal, o Santo também aparece
vestido com o hábito de Cónego Regrante de Santo Agostinho. Na Bélgica
algumas representações de Santo António salientam o seu carácter
sacerdotal, apresentando-o vestido com os paramentos da Eucaristia.
<<<<
6 Página - Página 8 >>>> |
|