Devoção antoniana em Portugal
Portugal é palco de um fenómeno peculiar no que toca à religiosidade
popular antoniana. Não podemos negar a influência que os Frades
Franciscanos tiveram na sua implantação e divulgação, mas o povo da
cidade natal de Santo António, desde o início, viu o Santo como um dos
seus e o seu culto, como algo que lhe pertencia. Em Lisboa, depois da
canonização, em 1232, dá-se um fenómeno a que eu chamaria de apropriação
popular de Santo António. Ao saberem que um dos seus vizinhos tinha sido
canonizado pelo Papa Gregório IX, os habitantes do bairro de Alfama
rejubilaram e começaram a chamar-lhe o seu Santo. A lentidão das
comunicações entre Itália e Portugal fez com que os pormenores da vida
do Santo chegassem a Portugal muito tarde, o que favoreceu o nascimento
de um culto espontâneo, original e livre. Hoje em dia, o povo conhece
minimamente a vida do Santo, mas continua a dar mais importância aos
relatos de milagres e episódios lendários, e não tanto à sua vida
histórica. Quando se tem no Céu um Santo que nasceu no nosso Bairro, com
o qual alguns estudaram Gramática na escola da Catedral e viram crescer
até aos 15 anos, é normal que se trate como um amigo muito querido e
especial. Por um lado, era a ele que se dirigiam todas os pedidos de
socorro e, por outro lado, a ele passaram a ser atribuídas todas as
curas e favores, para os quais a ciência da Idade Média não encontrava
explicação. Por todos e para tudo era invocado. Deste modo, a mais
sincera piedade popular, que com fé lhe rogava protecção, começou por
ver no Santo um Taumaturgo omnipresente e quase omnipotente.
Fernando Félix Lopes, conhecedor profundo das entranhas da alma do povo
português, explica que os lisboetas, acostumados a recorreu ao
Taumaturgo e por ele serem prontamente atendidos, «porque com ele
tratavam cada dia, cada hora, o Santo ficou tão de todos, tão da nossa
casa portuguesa, que quase se lhe perdeu o respeito. Na ânsia de o
termos perto, o apeamos do seu altar e o trouxemos para a nossa vida a
viver connosco, a cantar a nossa alegria, a chorar as nossas lágrimas, a
correr os nossos folguedos e trabalhos. Não foi irreverência: foi
confiança que tomamos ao Santo do nosso sangue»[13].
Hoje, esta apropriação popular de Santo António é reflexo da mesma
confiança. Muitas fachadas das casas têm um painel de azulejos com a sua
imagem. Como protector das famílias, aparece dentro das casas, sobre
pequenos altares, acompanhado de velas e flores. Nos estabelecimentos
comerciais, é frequente encontrarmos o Santo, em lugar de destaque,
dentro dos mercados, dos comércios, das farmácias, das padarias,
drogarias, entre outros. Aqui ele vela pelos bons negócios dos seus
proprietários. Entre os marinheiros portugueses, sobretudo os da região
de Lisboa, tornou-se comum levarem uma imagem do Santo António na
embarcação, para os proteger contra as forças marítimas, talvez, por ele
ter sido vítima de uma tempestade, que o empurrou para as costas da
Sicília. Em séculos passados, perante o perigo, ao mesmo tempo que o
invocavam, esses marinheiros mergulhavam a sua imagem de cabeça para
baixo, para serem mais rapidamente atendidos.
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