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(Continuação...)
Santo António proclamava a santidade do matrimónio, que não havia
apenas um caminho para a santidade, mas muitos caminhos, e que tanto
podiam ser santos os frades e os monges como os solteiros e os casados,
porque o matrimónio é caminho de santidade, a sexualidade é caminho de
santidade, tudo pode ser caminho de santidade, desde que vivido no
Senhor, e por isso ele aconselhava os jovens cristãos que se não
sentissem chamados para a vida religiosa, que casassem no Senhor e que
vivessem na santidade, porque o
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casamento no
Senhor é uma coisa sagrada. Foi nesta época que a Igreja proclamou
solenemente a sacramentalidade do
matrimónio, justamente para responder, entre tantas coisas, à heresia
cátara. E foi assim que Santo António entrou no imaginário popular como
o Santo Casamenteiro. Ainda hoje há os 'noivos de Santo António', embora
muitos não saibam a razão, sobretudo aqueles que vão casar pelo
civil..., mas enfim, a questão lá está como memória que seria necessário
reavivar.
Esta característica incarnacional da espiritualidade de Santo António
assumiu uma configuração eucarística. Nesse tempo, em Liège, por
influência de umas senhoras piedosas, começou a espalhar-se a devoção ao
Santíssimo Sacramento, movimento que colheu a enorme simpatia de S.
Francisco, que, ao que me parece, lá foi pessoalmente, em peregrinação,
porque ele sentia que essa era a sua grande intuição: que o evangelho da
incarnação é essencialmente evangelho eucarístico. Foi um movimento
fecundíssimo de renovação espiritual, que levou o Papa Urbano IV a
estender esta devoção a toda a Igreja, com a Festa do Corpus Christi,
que ainda hoje, tantos séculos depois, continua a celebrar-se.
Os autores espirituais do séc. XIX consideravam o mesmo mistério da
Incarnação sob outra perspectiva: a do Coração de Jesus, do Coração
eucarístico de Jesus. Para João do Coração de Jesus, ao longo da
história da Igreja, a espiritualidade teria evoluído, sempre na
contemplação do mesmo mistério da Incarnação, mas a partir de pontos de
vista diferentes. Assim, na antiguidade, era a figura do Bom Pastor; a
partir do séc. IV, a Cruz; na Idade Média, como acabámos de ver, a
Eucaristia; e na modernidade, o Coração de Jesus, o Coração trespassado,
que se dá em êxtase de amor, que cura o coração do homem ferido pelo
pecado. O Coração de Jesus é a expressão perfeita que integra o Bom
Pastor, a Cruz, a Eucaristia, e este seria então, diz o P. Dehon, o
grande dom de Deus para os tempos modernos, influenciados por uma outra
heresia anti-incarnacional, o jansenismo.
Como seria bom que se recordasse a quem o festeja, com sardinhas, com
arraiais, com marchas, com as noivas de Santo António, com responsos, ou
outras formas mais ou menos marginais ou mesmo heterodoxas, as razões da
popularidade de Santo António. A sua popularidade é a santidade; o seu
segredo é levar no braço e sobretudo no Coração, o Evangelho da
Incarnação, a mística e a espiritualidade do Coração eucarístico de
Jesus. A recente encíclica de João Paulo II poderia ser para todos um
bom meio de ir além de Santo António, para onde aponta a sua simpática e
traquina figura.
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