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O
concelho de Olivença é originariamente uma terra alentejana, com os seus
usos e costumes característicos do
Alto Alentejo, o seu modo de falar a
Língua portuguesa com a pronúncia característica das gentes daquela
região e o seu património histórico e artístico a atestar a sua secular
portugalidade firmada desde o Tratado de Alcanizes. Porém, a conjuntura
política dos finais do século XVII levaram à sua ocupação militar por
parte de Espanha por ocasião da chamada “guerra das laranjas”,
ocorrida em 1801. Esta situação levou ainda ao desmembramento do
concelho de Juromenha uma vez que, também a Aldeia da Ribeira – actual
freguesia de Vila Real – passou a integrar o município oliventino como
se do seu termo fizesse parte.
A
partir de então, diversos sucessos ocorridos ao longo de mais de dois
séculos de ocupação, entre os quais se destaca a guerra civil espanhola
e a ditadura franquista, determinaram a alteração do equilíbrio
demográfico, registando-se um progressivo abandono por parte dos
oliventinos de origem portuguesa e a sua substituição por gentes
oriundas da Extremadura e outras regiões de Espanha. A maioria dos que
ficaram foram reduzidos à situação de pobreza, fixaram-se nas aldeias em
redor e foram sujeitos a um processo de assimilação, vendo os seus
próprios nomes de baptismo convertidos para o castelhano.
A
realidade, porém, é que tendo a realidade social sido alterada e
colocando de parte julgamentos de natureza política, Olivença acusa
presentemente uma forte influência da extremenha a par de uma
surpreendente resistência da cultura portuguesa. É que, manter viva a
chama da cultura portuguesa através de uma dezena de gerações que
viveram sob as circunstâncias mais difíceis, sem qualquer estímulo por
parte do Estado português para além da manutenção jurídica da questão
territorial como uma posição de princípio, convenhamos que não é tarefa
fácil. Pelo que, certos juízos de valor que por vezes se fazem acerca da
vontade dos oliventinos, sem discriminação sequer quanto à sua origem,
só podem ser entendidos como cínicos ou ridículos.
Essa influência extremenha revela-se nomeadamente através do próprio
folclore, sendo usual os grupos folclóricos e de música tradicional
interpretarem danças e cantares que claramente se distinguem quanto à
sua origem e, na realidade, nem sequer se confundem.
Danças como “O
Pescador” e o “Verde-gaio” são representadas a par de
jotas e coplas extremenhas. É uma realidade diferente que é
resultado de processos históricos em relação aos quais não podemos
culpar aqueles oliventinos cujas origens não se filiam na nação
portuguesa. Mas, aquilo que devemos fazer e encontra-se ao nosso alcance
é o estreitamento das relações culturais com Olivença, nomeadamente
através do intercâmbio com os grupos folclóricos e de música tradicional
ali existentes, aceitando e compreendendo as diferenças e relevando a
sua identidade portuguesa e as suas características alentejanas.
Em
tempos, o Rancho Folclórico “La Encina”, interpretava uma cantiga
muito popular em Olivença nos começos do século XX, marcadamente
portuguesa. Recolhida por Bonifácio Gil e publicada no seu “Cancioneiro
Popular da Extremadura”, trata-se de uma melodia melancólica cujo
tema sugere a aproximação geográfica ao rio Guadiana, relacionada com a
faina da pesca e com toda a probabilidade originária da antiga Aldeia da
Ribeira, actual freguesia de Vila Real.
O
tema, que possui curiosas semelhanças com outras cantigas do cancioneiro
popular português, trata das relações amorosas do pescador com uma
mulher casada, qual “sereia que canta bela e que perdido é remo e
vela”…e os conselhos da gente para que volte atrás nos seus
propósitos. Na realidade, uma versão diferenciada da cantiga do “pescador
da barca bela”!
Ó pescador da barquinha
Volta atrás que vais perdido
Essa mulher que tu amas
É casada e tem marido;
Casada e marido tem,
Ó pescador da barquinha
Volta atrás que não vás bem.
Fugiste-me ingrato
Deixaste-me só
No alto da serra
Sem pena nem dó. |