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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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  Existem Grupos de Folclore que "representam" o século XX quando afirmam representar o Folclore do final do século XIX

Carlos Gomes(*)

 

(Continuação)

Ninguém com bom senso e sentido da evolução histórica do traje e dos comportamentos sociais pode conceber que, nos finais do século XIX, uma moça pudesse usar saias acima do tornozelo e exibir as suas roupas interiores. Ou ainda, o homem vestir um casaco ou um colete que não possui qualquer utilidade, apenas porque o seu corte o não permite e apenas se destina a exibir elementos de mera fantasia.

Outro aspecto que caracteriza muitos grupos folclóricos é o seu carácter híbrido, assim entendido na medida em que procuram representar áreas geo-etnográficas de vasta dimensão, misturando na representação elementos que minimamente não corresponde. Pese embora as feiras e as romarias terem também servido para aproximar populações de localidades mais ou menos distantes, fazendo-as interagirem do ponto de vista cultural, essa realidade circunscrita a uma época na qual os meios de transporte eram ainda limitados jamais permitiam que tal contacto se exercesse em áreas de dimensão mais vasta, levando um sargaceiro da Apúlia a dançar o picadinho dos Arcos ou um ganhão de Estremoz a dançar uma saia de Portalegre. Nalguns casos, sobretudo entre as comunidades portuguesas na emigração, este cenário vai ao ponto de colocar um ribatejano a dançar o vira e um minhoto o bailinho da Madeira…

Convém saber que muito do que actualmente se apresenta como folclore genuíno não é mais do que estilizações que foram introduzidas ao longo do tempo com o propósito de servir outros objectivos que não a sua preservação. E, sobretudo, não se deve apresentar como sendo dos finais do século XIX algo que na realidade é de invenção bem mais recente!

(*) Jornalista, Licenciado em História


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A exibição da intimidade seria impensável à mulher dos finais do século XIX. À esquerda, uma mulher de Barcelos em 1912.
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