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Desde a mais remota antiguidade que o ser humano adorou o sol,
deusificando-o e atribuindo-lhe a primazia sobre as demais divindades.
Tal sucedeu na Caldeia, na Palestina e no Egipto, aqui adorado sob o
nome de Ra. Na antiga Pérsia e na Índia, o deus Sol era designado por
Mitra tendo o seu culto dado origem ao mitraísmo que viria mais tarde a
rivalizar com o cristianismo a sua influência no Império romano,
acabando por vir a sucumbir com a sua queda e mais tarde acabando por
desaparecer por completo com o avanço do islamismo na Pérsia. Antes,
porém, o mitraísmo fora assimilado pelos gregos e espalhou-se por todo o
Império romano. O deus Mitra era geralmente representado por um jovem
com um boné frígio, túnica e manto sobre o ombro esquerdo. Esta religião
era superiormente dirigida por um sumo pontífice a os seus sacerdotes
ostentavam sobre a cabeça uma mitra. Curiosamente, trata-se do chapéu
com que os bispos se apresentam quando envergam as vestes pontificais,
tendo a sua origem na Pérsia e no Egipto, correspondendo ao turbante e
por conseguinte aludindo à adoração de Mitra.
Não admira, pois, que ao culto solar tenha sido sobreposta a adoração ao
menino Jesus, sendo-lhe atribuída a data do seu nascimento precisamente
numa altura em que os romanos celebravam o natale solis invicti
consagrado ao deus Sol, à semelhança do que se verifica com inúmeras
festividades pagãs que foram de algum modo adaptadas e "convertidas" à
crença cristã. Na mesma ocasião realizavam os romanos as saturnais ou
saturnálias que, como o próprio nome indica, eram festividades
consagradas a Saturno, trocavam de presentes e organizavam um banquete
público, aspectos que de alguma forma podemos relacionar com as
tradicionais "festas dos rapazes" em várias localidades de
Trás-os-Montes. Aliás, o culto a Saturno chegou a ser muito difundido na
Península Ibérica, tendo diversos escritores da antiguidade referido-se
à existência de santuários entre os quais se supõe ter havido um na
Ínsua do rio Minho, um local onde actualmente as gentes locais vão em
peregrinação ao Senhor Jesus dos Mareantes, fazendo festa rija em
Agosto. Saturno era o deus protector dos semeadores e das sementes, pelo
que os romanos acreditavam que durante as saturnais regressava a
abundância, assegurando a fertilidade durante essa época do ano.
Ainda em relação ao mitraísmo, também este possuía extraordinárias
semelhanças com o cristianismo, entre as quais a crença no céu e no
inferno, na ressurreição, nos pastores que tal como os reis magos
ofereciam presentes, no dilúvio, na santificação do domingo, na prática
da confissão e da comunhão e, finalmente, a própria celebração do 25 de
Dezembro!
A celebração do nascimento de Jesus constitui actualmente uma festa que
é vivida com grande grande intensidade pelo povo português e que, apesar
da sua significação profundamente religiosa, também não escapa às regras
de funcionamento de uma sociedade mercantilizada, virada cada vez mais
para os interesses materiais em detrimento dos valores espirituais. Não
obstante, as festividades da quadra natalícia encontram-se profundamente
enraizadas no nosso folclore revelando-se através das mais diversas
manifestações de cariz popular, na gastronomia, na música, nas lendas e
de um modo geral em todos os aspectos que envolvem tais celebrações. Não
obstante, temos principalmente nos últimos tempos vindo a constatar que
tradições oriundas de outros países têm vindo a substituir alguns
costumes genuínos do nosso povo, como sucede com a reverência ao "Pai
Natal", agora destituído para dar lugar a S. Nicolau, quando outrora as
festividades decorriam exclusivamente em torno do "menino Jesus". Da
mesma forma que o tradicional presépio cedeu o lugar ao nórdico pinheiro
de Natal enfeitado com flocos de neve, mesmo em locais onde jamais
nevou... |