|
Coloca-se aqui a questão a saber se, perante uma peça que não foi
remetida à prateleira da História, mas antes pelo contrário continua a
ser utilizada e a acompanhar a evolução dos tempos, deve ser considerada
do ponto de vista etnográfico e folclórico tal como actualmente se nos
apresenta ou, pelo contrário, as modificações introduzidas deverão ser
entendidas como adulterações e, por conseguinte, liminarmente
rejeitadas. E, assim sendo, qual a referência temporal que deve ser
considerada válida para a aceitação de um modelo de acordo com os
padrões de autenticidade do traje da mulher da Nazaré. |
|
Afinal de contas, importa saber o que sucederia se os trajes
característicos de outras regiões do país não tivessem sido remetidos às
prateleiras dos museus etnográficos ou a simples peças exibidas pelos
grupos folclóricos mas antes, continuassem a fazer o seu curso normal,
continuando a constituir o vestuário usual das nossas gentes, recusando
os padrões criados pela grande indústria têxtil e de vestuário. Teriam
eles resistido ao tempo e permanecido inalterados desde os finais do
século XIX até aos nossos dias?
O aparecimento da fotografia e das técnicas de gravação sonora
constituíram, entre outros aspectos, factores determinantes que
possibilitaram a preservação de memórias históricas entre as quais se
incluem as de natureza etnográfica. O espírito romântico associado à
necessidade de preservar a identidade cultural perante o crescimento de
uma sociedade moderna e industrial que ameaçava dissolver os costumes
tradicionais levou ao aparecimento de formas organizadas de salvaguarda
de um património cultural que corria o risco de desaparecer. O
associativismo então emergente como forma de participação cívica fez o
resto. Não admira, pois, que a generalidade dos grupos folclóricos
actualmente existentes reporte a sua representação aos finais do século
XIX e começos do século XX, beneficiando ainda da resistência dos
materiais que constituem a sua fonte documental, mormente as peças de
vestuário que exibem.
Resta agora saber se, perante estes factos, deve ser tida em
consideração a evolução permanente do traje dito tradicional ou, pelo
contrário, ser apenas mantido como referência etnográfica os modelos
referentes a uma época mais remota, porventura os finais do século XIX,
atendendo nomeadamente a que estes também registaram alterações em
relação a épocas anteriores? |