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  A evolução do traje da mulher da Nazaré (2)

Carlos Gomes(*)

Coloca-se aqui a questão a saber se, perante uma peça que não foi remetida à prateleira da História, mas antes pelo contrário continua a ser utilizada e a acompanhar a evolução dos tempos, deve ser considerada do ponto de vista etnográfico e folclórico tal como actualmente se nos apresenta ou, pelo contrário, as modificações introduzidas deverão ser entendidas como adulterações e, por conseguinte, liminarmente rejeitadas. E, assim sendo, qual a referência temporal que deve ser considerada válida para a aceitação de um modelo de acordo com os padrões de autenticidade do traje da mulher da Nazaré.

Trajes de Mulher da Nazaré - PortugalAfinal de contas, importa saber o que sucederia se os trajes característicos de outras regiões do país não tivessem sido remetidos às prateleiras dos museus etnográficos ou a simples peças exibidas pelos grupos folclóricos mas antes, continuassem a fazer o seu curso normal, continuando a constituir o vestuário usual das nossas gentes, recusando os padrões criados pela grande indústria têxtil e de vestuário. Teriam eles resistido ao tempo e permanecido inalterados desde os finais do século XIX até aos nossos dias?

O aparecimento da fotografia e das técnicas de gravação sonora constituíram, entre outros aspectos, factores determinantes que possibilitaram a preservação de memórias históricas entre as quais se incluem as de natureza etnográfica. O espírito romântico associado à necessidade de preservar a identidade cultural perante o crescimento de uma sociedade moderna e industrial que ameaçava dissolver os costumes tradicionais levou ao aparecimento de formas organizadas de salvaguarda de um património cultural que corria o risco de desaparecer. O associativismo então emergente como forma de participação cívica fez o resto. Não admira, pois, que a generalidade dos grupos folclóricos actualmente existentes reporte a sua representação aos finais do século XIX e começos do século XX, beneficiando ainda da resistência dos materiais que constituem a sua fonte documental, mormente as peças de vestuário que exibem.

Resta agora saber se, perante estes factos, deve ser tida em consideração a evolução permanente do traje dito tradicional ou, pelo contrário, ser apenas mantido como referência etnográfica os modelos referentes a uma época mais remota, porventura os finais do século XIX, atendendo nomeadamente a que estes também registaram alterações em relação a épocas anteriores?

(*) Jornalista, Licenciado em História


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