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(continuação...)
Como é evidente, à semelhança do que sucede
com todas as coisas, também o “traje à vianesa” se submete às
influências das épocas e respectivas modas, registando também os efeitos
perversos do uso que lhe é dado, para além da sua primitiva finalidade
que consistia simplesmente num vestuário para ser utilizado em dia de
festa. Numa determinada época, as exigências do turismo encolheram as
saias e provocaram outros estragos que ainda são visíveis no nosso
folclore. Enfim, a passagem do tempo e as mudanças sociais causam
inevitavelmente o seu desgaste nos objectos e nas mentalidades. |
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Na realidade, tal como disse Cláudio Basto,
“na província do Minho não há, para as mulheres, como para ninguém,
um só vestuário regional típico – e nem sequer o há em Viana do Castelo”.
O traje à lavradeira possui tantas variantes quantas as aldeias e
a criatividade das suas gentes na confecção do seu próprio vestuário e,
sobretudo, neste traje que apenas era usado em dias de festa. Sucede
que, a sua origem remonta a um tempo em que a indústria então emergente
ainda não conseguira impor a padronização das formas, a uniformização
dos gostos e a produção da roupa “pronto-a-vestir”. Nem os
modestos recursos das nossas gentes permitiam adquirir peças de fábrica,
pelo que tinham de semear o linho e tecê-lo nos teares caseiros, agora
arrumados ao canto da casa, em muitas aldeias da nossa região. Aliás,
conforme se comprova através dos assentos paroquiais de baptismo, eram
elevado o número de tecedeiras então existentes, profissão que acabaria
por praticamente desaparecer.
Mas o “traje à vianesa” não se deteve
na nossa região. Desde há muito tempo que ultrapassou os seus limites
naturais, galgou fronteiras e atravessou mares. Ele surge nas mais
variadas formas de publicidade, desde sempre foi o traje preferido das
crianças no período carnavalesco e em épocas festivas, desfila nas ruas
de Nova Jersey por ocasião das celebrações do Dia de Portugal realizadas
pela comunidade portuguesa e é envergado por goeses e malaios que,
através de ranchos folclóricos, insistem em preservar as suas raízes
portuguesas. Em Lisboa, quando as marchas populares desceram pela
primeira vez a avenida da Liberdade, o “traje à vianesa” foi o
escolhido pela marcha do bairro de Campo de Ourique, sintomaticamente
aquele que viria a vencer o concurso. E, ainda há cerca de uma dúzia de
anos, aquele bairro lisboeta viria a repetir a escolha do traje, numa
evocação da migração minhota que teve aquela cidade como local de
destino. Também, no Museu do Homem, em Paris, é o “traje à vianesa”
que figura em destaque no expositor dedicado a Portugal, qual
ex-líbris a identificar o nosso país.
Não discuto se o “traje à vianesa” é
de Viana ou Ponte de Lima, de Valença ou de Caminha, das Argas ou da
Ribeira Lima. Ou ainda, se é mais gracioso em Carreço ou na Meadela,
Afife ou Areosa, em Perre ou Santa Marta de Portuzelo. O traje de
lavradeira, vulgo “traje à vianesa”, é património nacional e
ex-líbris de Portugal! |