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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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  Traje à Vianesa - ex-libris de Portugal

Carlos Gomes(*)

(continuação...)

Como é evidente, à semelhança do que sucede com todas as coisas, também o “traje à vianesa” se submete às influências das épocas e respectivas modas, registando também os efeitos perversos do uso que lhe é dado, para além da sua primitiva finalidade que consistia simplesmente num vestuário para ser utilizado em dia de festa. Numa determinada época, as exigências do turismo encolheram as saias e provocaram outros estragos que ainda são visíveis no nosso folclore. Enfim, a passagem do tempo e as mudanças sociais causam inevitavelmente o seu desgaste nos objectos e nas mentalidades.

Na realidade, tal como disse Cláudio Basto, “na província do Minho não há, para as mulheres, como para ninguém, um só vestuário regional típico – e nem sequer o há em Viana do Castelo”. O traje à lavradeira possui tantas variantes quantas as aldeias e a criatividade das suas gentes na confecção do seu próprio vestuário e, sobretudo, neste traje que apenas era usado em dias de festa. Sucede que, a sua origem remonta a um tempo em que a indústria então emergente ainda não conseguira impor a padronização das formas, a uniformização dos gostos e a produção da roupa “pronto-a-vestir”. Nem os modestos recursos das nossas gentes permitiam adquirir peças de fábrica, pelo que tinham de semear o linho e tecê-lo nos teares caseiros, agora arrumados ao canto da casa, em muitas aldeias da nossa região. Aliás, conforme se comprova através dos assentos paroquiais de baptismo, eram elevado o número de tecedeiras então existentes, profissão que acabaria por praticamente desaparecer.

Mas o “traje à vianesa” não se deteve na nossa região. Desde há muito tempo que ultrapassou os seus limites naturais, galgou fronteiras e atravessou mares. Ele surge nas mais variadas formas de publicidade, desde sempre foi o traje preferido das crianças no período carnavalesco e em épocas festivas, desfila nas ruas de Nova Jersey por ocasião das celebrações do Dia de Portugal realizadas pela comunidade portuguesa e é envergado por goeses e malaios que, através de ranchos folclóricos, insistem em preservar as suas raízes portuguesas. Em Lisboa, quando as marchas populares desceram pela primeira vez a avenida da Liberdade, o “traje à vianesa” foi o escolhido pela marcha do bairro de Campo de Ourique, sintomaticamente aquele que viria a vencer o concurso. E, ainda há cerca de uma dúzia de anos, aquele bairro lisboeta viria a repetir a escolha do traje, numa evocação da migração minhota que teve aquela cidade como local de destino. Também, no Museu do Homem, em Paris, é o “traje à vianesa” que figura em destaque no expositor dedicado a Portugal, qual ex-líbris a identificar o nosso país.

Não discuto se o “traje à vianesa” é de Viana ou Ponte de Lima, de Valença ou de Caminha, das Argas ou da Ribeira Lima. Ou ainda, se é mais gracioso em Carreço ou na Meadela, Afife ou Areosa, em Perre ou Santa Marta de Portuzelo. O traje de lavradeira, vulgo “traje à vianesa”, é património nacional e ex-líbris de Portugal!

(*) Jornalista, Licenciado em História


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