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Mas faltaria ainda descortinar num país de tão velha nacionalidade, e
apesar do papel unificador do Estado e da Igreja, as razões de tão
marcadas diferenciações regionais e, outrossim, determinar o porquê da
tão probante funcionalidade da nossa canção popular, o que sem dúvida
remeteria para questões lindantes com estruturas fundiárias e sistemas
de produção.
A todas estas perguntas, praticamente sem resposta, contrapõe-se a firme
presença do canto, cuja função sempre se ajusta às leis da sobrevivência
na sociedade tradicional e de economia rural, em que ritos do trabalho e
de religião visam assegurar ao homem a sua salvação no mundo terrestre.
Se quiséssemos agora considerar o que de mais significativo revela a
nossa canção popular, do ponto de vista da sua natureza, modalidades,
estruturas e funções, não hesitaríamos em apontar para quatro aspectos
díspares mas inequívocos e cuja apreciação conjunta permite detectar a
profunda integração do fenómeno musical na vida quotidiana das
populações rurais.
1.- A expressão polifónica parece-nos ser a que mais pertinentemente
afirma o comportamento musical do nosso povo, atestando nas suas várias
formulações um longínquo enraizamento e uma vasta implantação
territorial. Ao abranger grande parte dos distritos de Aveiro, Beja,
Braga, Castelo Branco, Guarda, Viana do Castelo, além de concelhos ou
zonas limitadas dos distritos de Coimbra, Évora, Santarém e Vila Real, o
canto polifónico assumiu entre nós uma importância raramente igualada em
povos da Europa ocidental (notemos de passagem a sua quase inexistência
na vizinha Espanha).
Sumariamente, esta polifonia apresenta as formas antigas do gymel (canto
em terceiras) e do fabordão (canto em terceiras e sextas) e, deste,
formas mais elaboradas a três e quatro vozes (organum). É de sublinhar o
facto de ela ser entoada apenas por mulheres em todas as regiões, salvo
no Alentejo, onde é de uso quase exclusivo dos homens. Assinalam-se,
contudo, exemplos de excepções, que são certos cantos rituais da
Beira
Baixa e Beira Litoral e certas modas alentejanas de trabalho, que
admitem, respectivamente, vozes masculinas e femininas.
Por fim, o que mais surpreende nesta polifonia é o seu ajustamento às
ocasiões do trabalho (sacha, sementeira, ceifa, varejo da azeitona,
arrancada, maçadela e espadelada do linho, etc.) a testemunhar a sua
solidariedade com as tarefas vitais do homem do campo. |