Quando alguém tinha a espinhola caída, para se curar deveria estar deitado 3, 5, 7 ou 9 dias, conforme a gravidade da doença.
Em todas as benzeduras e rezas empregavam-se, como ingredientes de defumação, 3 ou 5 pedaços de certas plantas, sendo 3 as vezes que se repetia uma reza, em 3 (ou múltiplo de 3) dias sucessivos.
Outros costumes, fazendo parte das crenças sobrenaturais do saloio, sem dúvida supersticiosas desviadas e alteradas irremediavelmente de alguma tradição mais séria e menos absurda, mais espiritual e menos psíquica, e tomando por partida a Murteira, eram os seguintes: a partir do meio-dia não se devia deitar lixo nem água-vai para a rua. Também não se devia levantar a mesa logo que terminassem as refeições, porque os “inginhos tem fome e quer comer”.
Para que o leite não secasse nas vacas, nunca se devia queimar, nas proximidades dos estábulos ou “palheiros”, onde elas viviam, madeira de figueira.
Sobre o simbolismo da figueira, aproveito aqui este espaço para rectificar o seguinte: ao contrário do que ouvi dizer acerca do fruto da figueira simbolizar o Pai Eterno por Este se manifestar súbita e misteriosamente tal qual a figueira que não dá flor e aparece o fruto sem que se espere, a verdade é que aparecem os bolbos a partir dos meados de Abril para que em Junho-Julho se colham os figos, que nos finais de Agosto já estão secos. Foi assim que os vi nas muitas figueiras que varejei em minha infância, no Algarve junto dos pais da minha mãe adoptiva. Portanto, essa interpretação do símbolo não está correcta, não se devendo esquecer que a figueira ou kurma, em árabe, ajustando-se ao tema hindustânico karma, “acção”, na cultura judaico-cristã ocidental estará para sempre associada ao episódio bíblico de Jesus ter amaldiçoado a figueira (Mateus, 21:19; Marcos, 2:12 s.). Segundo é tradição geral, o simbolismo da figueira tem duplo interpretação: como árvore viçosa, repleta de frutos, simboliza a Ciência Sagrada cujos frutos são os preferidos dos seus postulantes; como árvore seca, morta, expressa a heresia e o mal representados pelos seus ramos dissecados, num dos quais Judas herege se terá enforcado. De maneira que, associar o símbolo do figo ao Pai e esquecer que Jesus amaldiçoou essa árvore, vale o mesmo que o absurdo do Salvador tenha abjurado ao Progenitor da Criação…
Voltando aos saloios, no tratamento de certas doenças, como a erisipela, empregava-se para pincelar a parte do corpo afectada uma pena de galinha preta.
Quando o lume estava a fagulhar, era bom deitar-lhe algumas pedras de sal e de seguida voltar-lhe as costas.
Não era bom tocar caxa velha, pois acontecia alguma desgraça.
Era de mau agoiro ouvir piar os mochos, pois era sinal de morte no lugar.
Não era bom partir vidros.
Para que as bruxas não entrassem em casa, era conveniente colocar atrás da porta um banco de pernas para o ar.
Todo esse ritualismo crencista, supersticioso e pagão ou paissan, “camponês”, mesmo assim não deixa de ter a sua razão de ser, o que me leva a deduzir, mais uma vez, de resquícios degenerados muitíssimo e irredutivelmente afastados de uma original, verdadeira e completa Tradição Iniciática talvez moçarábica, mista de Cristianismo oriental com Arianismo ocidental, tudo com halo arábico, e a qual seria ministrada no esconso reservado das Caneças não raro anexas às mourarias, detentoras do supervisionamento. Com a expulsão posterior dos mouros para fora dos muros das cidades onde tinham os seus colégios, a cultura moçarábica seguiu-os e aos poucos foram extinguindo-se como etnias distintas, com eles a cultura e religião próprias só ficando, como testemunho fragmentado ainda assim mantendo-se por herança genética alimentada por via oral de velhos a novos, as crenças sobrenaturais do Termo, resquício psíquico dum período áureo irrevogavelmente morto. Ao Homem cabe nascer, crescer, decrescer, morrer… assim também com as civilizações, logo, igualmente aos seus usos e costumes, sejam sagrados, sejam profanos, sejam ambas as coisas inter-relacionadas.
Para terminar esta ligeira abordagem às crenças sobrenaturais do saloio estremenho, desfecho com um breve glossário de termos saloios, extraído, com a devida vénia, do livro de Maria Rosa Lila Dias Costa (ob. cit.), dividido em duas partes: a primeira, sobre astros e fenómenos atmosféricos; a segunda, sobre superstições e crenças.



