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  O JOGO DA REZA

A. M. Pires Cabral


Há dois “picos” no calendário rural em que se acumulam com especial intensidade usos e procedimentos de carácter etnográfico. Habitualmente estes “picos” coincidem com os momentos mais importantes do calendário religioso, já que é este o que mais influi na regulação da vida colectiva. São eles a Quaresma, com início logo a seguir ao Carnaval e termo na Semana Santa, e o Natal. Momentos de especial significado espiritual, não admira que neles se concentrem esses usos e procedimentos, destinados justamente a realçar-lhes o significado.

No Nordeste Trasmontano, a Quaresma incluía a cerimónia da Bênção dos Ramos (que é simultaneamente etnográfica e religiosa, pois evoca um momento particular na biografia de Cristo e por isso é incorporada no cerimonial litúrgico), mas também procedimentos de origem e intenções menos historicamente autorizadas, mas não menos óbvias, como é o caso da Queima do Judas e do Jogo da Reza.
 
Este Jogo da Reza, hoje em claro processo de regressão (será que existe ainda nalguma aldeia remota?), era uma manifestação predominantemente infantil, cuja intenção última, para além da parte lúdica, devia ser inculcar na criança o hábito da oração e a interiorização dos seus préstimos.
 
Consistia numa espécie de pacto celebrado já dentro da Quaresma, por vezes muito próximo do Carnaval, entre duas crianças, sendo irrelevante o sexo. Uma delas propunha à outra: “Queres andar comigo à reza?” Aceite o pacto, o jogo desenvolvia-se da seguinte forma: em cada dia que passava, aquele que primeiro avistasse o outro gritava-lhe: “Reza!” Tinha-lhe, dessa forma, “tomado a reza” e o outro devia rezar uma oração (a tal parte “pedagógica” do jogo).

Isto tinha de se passar ao ar livre, porque “debaixo de telha” não valia. Em princípio, mandava-se rezar apenas uma vez por dia, mas podiam ser mais, quantas se quisessem ou se proporcionassem. As crianças caprichavam em tomar a reza o maior número de vezes possível, mas as consequências práticas não eram nenhumas, a não ser a oração que tinham de rezar. Só havia verdadeiramente consequências práticas em relação ao dia de Páscoa, em que aquele a quem era tomada a reza tinha de oferecer um qualquer presente ao ganhador.
 
São fáceis de imaginar as precauções que cada um tomava para não se deixar surpreender pelo outro. E uma perfídia muito corrente era colocarem os rapazes debaixo da boina ou do boné um caco de telha, para poderem argumentar, no caso de perderem, que estavam “debaixo de telha”, e portanto não valia, o que fazia voltar tudo à estaca zero...
 
Entre a Páscoa e a Pascoela jogava-se por vezes um jogo em tudo semelhante a este. A diferença estava em que, em vez de se dizer “Reza!”, se dizia (nunca percebi muito bem porquê e acredito pois que seja uma fórmula meramente arbitrária) “Bela Flor!”
 
Às vezes ia-se mesmo mais além no tempo, substituindo agora o “Bela Flor!” por “Belo Cravo!”, na semana imediata. Mas isso já era considerado algo forçado e por isso tinha pouca voga.
 


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