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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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  Romeiros de S. Miguel (2)

 

O Traje Romeiro e a sua Simbologia

O Romeiro ostenta o bordão, xaile, lenço e saco ao ombro. Leva ainda dois terços, um ao pescoço e outro na mão para a oração durante o decurso de toda a romaria.

O bordão serve para apoiar e facilitar o caminhar do peregrino pelas veredas e atalhos acidentados da ilha, o xaile e lenço por sua vez, para protegê-lo do frio e da intempérie.

Embora o traje tenha originado das necessidades puramente físicas do romeiro em peregrinação, este transformou-se com o decorrer do tempo em simbolismos místico-religiosos: O bordão relembra o ceptro entregue a Cristo pelos romanos no seu julgamento ante Pilatos, o xaile a Sua Túnica, o lenço a coroa de espinhos do Seu suplício e o saco a Cruz a caminho do Calvário.

Rituais e Itinerário

A Romaria decorre ao longo de oito dias, findando o itinerário no ponto de partida. Os participantes são, por norma, leigos que contam com a colaboração do clero durante toda a sua realização. O seu propósito é visitar "as casas de Nossa Senhora". O itinerário é pré-estabelecido e sua efectivação a cargo do Mestre do grupo. Actualmente, a pernoita e a esmola de outrora foram substituídas por uma organização mais em sintonia com os nossos tempos. Providencia-se com a devida antecedência a colaboração das paróquias ao longo de todo o percurso previsto para a romaria, e onde os paroquianos acolhem os romeiros em suas casas, facultando-lhes a refeição da noite e água quente com sal para os pés fatigados e lacerados pela caminhada. O romeiro porta ao ombro o saco de alimentos para as demais refeições da jornada.

Ao lavar os pés do peregrino, alguns anfitriões relembram o gesto de humildade e caridade de Jesus junto dos seus apóstolos.

A Avé Maria é o cântico predominante de toda a romaria, sendo o Pai-nosso ofertado em silêncio enquanto a Glória é rezada somente nas paragens efectuadas durante a jornada. O Grupo faz-se acompanhar à retaguarda de um Procurador de Almas cuja missão é recolher e quantificar os pedidos de oração das gentes que possam porventura encontrar pelo caminho. O requisitante deverá, por sua vez, recolher-se e rezar igual número de Avé Marias quanto os romeiros que encontrou. O Lembrador das Almas recorda os falecidos que jazem nos cemitérios do percurso, instigando os romeiros à oração por suas almas.

Como em quase toda a tradição religiosa popular, o Sacro também aqui entrosa-se com o Profano nas engraçadas histórias e piadas contadas à volta da refeição, as quais espelham toda a alegria e bonomia do convívio fraternal entre romeiros.

A Romaria Micaelense no Mundo Actual

Não obstante a sua história secular, a Romaria Quaresmal Micaelense é bem actual, pois proporciona ao fiel o retiro espiritual onde poderá redescobrir os valores cristãos e aproximar-se do seu Criador num aprendizado vivo e real da fé e consciencialização da verdadeira dimensão do Homem no Universo.

"Somos pequeninos no meio disto tudo … Deus quer revelar a Sua grandeza na nossa pequenez … Que Deus se espelhe nessa pequenez."
(Excerto da entrevista concedida à Adiaspora.com pelo Sr. Padre António Teixeira Pereira)

No mundo actual, assolado por tanta discórdia e tribulação, a paz resultante desta reaproximação ao Cristo e sua Excelsa Mãe, a Virgem Maria, pelos ensinamentos de caridade e humildade bem patentes em todo o percurso romeiro, virá reforçar a presença destas virtudes na vida e prática quotidiana dos seus participantes, reflectindo-se numa família mais coesa e uma intervenção social mais tolerante, fraternal, activa e significativa.

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